A mudança climática já não representa apenas uma ameaça ambiental. Cada vez mais, seus impactos são reconhecidos como um dos maiores desafios para a saúde pública global.

Um novo relatório da Comissão Pan-Europeia sobre Clima e Saúde recomendou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declare a crise climática uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC), o mais alto nível de alerta sanitário utilizado pela organização.

A proposta reflete o crescente consenso científico de que o aquecimento global está ampliando riscos à saúde em diferentes regiões do planeta, com efeitos que vão desde o aumento de doenças infecciosas até impactos na saúde mental, na segurança alimentar e na qualidade do ar.

O que significa uma emergência de saúde pública internacional?

A classificação de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional é utilizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para situações que representam riscos globais à saúde e demandam respostas coordenadas entre países.

Nos últimos anos, esse mecanismo foi acionado em crises como a pandemia de COVID-19 e os surtos de Mpox, que é uma doença infecciosa causada pelo Mpox vírus (MPXV), do gênero Orthopoxvirus.

Segundo os especialistas que elaboraram o relatório, a crise climática já reúne características semelhantes: seus impactos ultrapassam fronteiras, afetam populações vulneráveis em diferentes continentes e exigem ações coordenadas em escala global.

“A OMS já reconheceu que as alterações climáticas são uma grande ameaça para a saúde global. O que pedimos é um passo em frente”, afirmou Andrew Haines, professor de Mudanças Climáticas e Saúde Pública da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e principal conselheiro científico da comissão.

Como as mudanças climáticas afetam a saúde?

Os efeitos da crise climática sobre a saúde são amplos e vêm sendo documentados por pesquisadores(as) em todo o mundo.

Entre os principais impactos estão:

  • Aumento da frequência e intensidade das ondas de calor;
  • Expansão da transmissão de doenças como dengue, chikungunya e outras arboviroses;
  • Agravamento da poluição do ar;
  • Crescimento da insegurança alimentar;
  • Maior ocorrência de eventos extremos, como enchentes, secas e incêndios florestais;
  • Impactos na saúde mental relacionados à exposição a desastres climáticos e à insegurança gerada pelas mudanças ambientais.

Esses fatores afetam diretamente a qualidade de vida, aumentam a pressão sobre os sistemas de saúde e elevam os custos sociais e econômicos associados ao adoecimento da população.

Sistemas de saúde precisam se preparar

Especialistas destacam que os sistemas de saúde precisam estar preparados para enfrentar os impactos já inevitáveis da mudança climática.

Isso inclui fortalecer a capacidade de resposta a eventos extremos, ampliar sistemas de vigilância epidemiológica, desenvolver planos de adaptação climática e proteger grupos mais vulneráveis, como crianças, pessoas idosas ou com doenças crônicas.

A preparação dos serviços de saúde é considerada fundamental para reduzir mortes, internações e outros danos associados ao aumento das temperaturas e à ocorrência de desastres climáticos.

Combater a desinformação também é uma medida de saúde pública

Outro ponto destacado pela comissão é a necessidade de enfrentar a desinformação relacionada à mudança climática.

Segundo os e as especialistas, a comunicação nítida e baseada em evidências é essencial para ampliar a compreensão pública sobre os riscos climáticos e fortalecer o apoio a medidas de proteção da saúde.

“A maneira de desafiar o ceticismo e a desinformação sobre o clima é simples: torná-lo pessoal. As alterações climáticas não vão acontecer no futuro ou com outras pessoas. Elas já estão afetando vidas, enchendo hospitais e gerando impactos na saúde física e mental”, destacou Katrín Jakobsdóttir, ex-primeira-ministra da Islândia e presidente da comissão.

Clima é saúde

O relatório reforça uma mensagem que vem ganhando força em todo o mundo: a mudança climática é também uma crise de saúde pública.

Reconhecer essa relação é fundamental para desenvolver políticas capazes de proteger vidas, fortalecer sistemas de saúde e reduzir as desigualdades que tornam determinadas populações mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.

À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, cresce a necessidade de colocar a saúde no centro das decisões sobre clima.

Médicos pelo Clima

O programa Médicos pelo Clima trabalha para ampliar o debate sobre os impactos da mudança climática na saúde humana e fortalecer a participação dos e das profissionais de saúde na construção de soluções para a crise climática.

Acompanhe nossos conteúdos e publicações para entender como clima, qualidade do ar e saúde estão conectados e por quais motivos agir agora é fundamental para proteger vidas.