Durante muito tempo, as mudanças climáticas foram discutidas como um problema distante, ambiental ou exclusivamente político. Hoje, entretanto, elas já atravessam os corredores dos hospitais, os serviços de emergência, os ambulatórios e a própria formação médica.

Em uma atividade realizada com estudantes de Medicina do segundo ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, propusemos uma reflexão: “Como vocês imaginam que será a prática médica em 2030 frente às mudanças climáticas?”. As respostas revelaram uma geração de futuros médicos conscientes de que a crise climática e de que a medicina precisará se transformar para enfrentá-la.

Os alunos demonstraram compreender que os impactos climáticos decorrentes do aumento da temperatura do planeta, afetam diretamente o perfil epidemiológico das doenças, a vulnerabilidade social dos pacientes e a organização dos sistemas de saúde.

Uma das reflexões destacou que: “A crise climática transformou-se no maior desafio de saúde pública deste século, exigindo que compreendamos como o adoecimento humano está conectado à degradação dos ecossistemas.” Outro grupo descreveu como imaginam o cotidiano da prática clínica nos próximos anos: “As emergências receberão um aumento expressivo de crises de asma, DPOC e infartos decorrentes da poluição e de queimadas. As ondas de calor extremo trarão casos graves de desidratação e falência renal em idosos.”

Os estudantes também relacionaram o aquecimento global à expansão de doenças transmitidas por vetores, enchentes, insegurança hídrica e eventos extremos: “O aquecimento global expandirá geograficamente vetores como o Aedes aegypti, prolongando surtos de dengue e malária fora de suas áreas endêmicas tradicionais.”

Além das doenças infecciosas e respiratórias, chamou atenção a percepção dos alunos sobre os impactos sociais e mentais associados às mudanças climáticas. Eles compreenderam que os efeitos não serão distribuídos de forma igual na população: “Os impactos serão cada vez mais proeminentes nos diagnósticos patológicos da população, especialmente na parcela que já é vulnerabilizada socioeconomicamente.”

Outro ponto central presente nas respostas foi a necessidade de ampliar o olhar da medicina tradicional. Os estudantes reconheceram que o cuidado em saúde precisará incorporar determinantes ambientais, sociais e climáticos. Em uma das falas, surgiu de forma muito clara o conceito de Saúde Planetária e One Health: “Analisar a saúde exclusivamente sob uma perspectiva biomédica é extremamente danoso e superficial.”E complementam: “É necessário expandir a visão sobre a medicina, utilizando o conceito de ‘One Health’, em que meio ambiente, cultura, aspectos sociais e fisiopatológicos estão integrados.”

Essa percepção é particularmente relevante porque demonstra uma mudança geracional na compreensão do que significa cuidar. Para esses futuros médicos, não será mais possível separar a saúde humana da estabilidade ambiental.

As respostas também mostraram preocupação com a própria formação médica. Muitos alunos entendem que as faculdades precisarão preparar profissionais capazes de lidar com ondas de calor, queimadas, enchentes, migração climática, colapso de infraestrutura e aumento das desigualdades em saúde. Um dos grupos escreveu: “Será cada vez mais necessário que estudantes e profissionais compreendam a relação entre meio ambiente e saúde, de modo que estejam preparados para lidar com novas demandas da saúde.”

Outro aspecto importante levantado foi o papel ético do médico diante da emergência climática. Os estudantes reconhecem que os profissionais de saúde não serão apenas responsáveis pelo tratamento das doenças, mas também agentes de conscientização, adaptação e transformação dos sistemas de saúde: “Nosso papel extrapolará os consultórios, fazendo com que sejamos agentes sociais e defensores de políticas públicas essenciais para curar nossos pacientes e proteger o planeta.”

As reflexões produzidas pelos alunos revelam algo muito potente: a próxima geração de médicos já compreendeu que a prática médica em 2030 será inevitavelmente atravessada pelas mudanças climáticas. Mais do que uma preocupação futura, essa já é uma realidade presente. Ondas de calor, piora da qualidade do ar, queimadas, enchentes e expansão de arboviroses já impactam diariamente a saúde da população brasileira.

Escutar os estudantes nos traz esperança. Eles demonstram sensibilidade, senso crítico e entendimento de que a medicina do futuro precisará ser mais integrada, preventiva, sustentável e socialmente comprometida.

Talvez a principal mensagem deixada por eles seja justamente esta: cuidar da saúde das pessoas também significa cuidar do planeta onde elas vivem.