Nota técnica produzida com apoio do programa Médicos pelo Clima reúne o que a evidência científica recomenda para a saúde diante da crise climática; levantamento do Instituto Ar mostra que só 9 dos 34 planos de governo de 2026 relacionam clima e danos à saúde.
Ondas de calor, fumaça, poluição do ar e enchentes podem chegar aos serviços de saúde de muitas formas: pelo agravamento de doenças, pelo aumento da demanda por atendimento e pela pressão sobre a capacidade de resposta dos serviços.
Por isso, falar sobre clima também significa falar sobre prevenção, preparação dos serviços de saúde e políticas públicas.
Em um ano eleitoral, essa relação nos leva a uma pergunta: a saúde está sendo considerada nos planos de governo diante da crise climática?
Para ajudar profissionais de saúde e a sociedade a conhecer o que está nos documentos oficiais, o Instituto Ar leu os 34 planos de governo registrados no TSE para a Presidência da República e para os governos de São Paulo, Rio Grande do Sul e Maranhão. Os impactos do clima na saúde aparecem em só 9 dos 34 planos; a poluição do ar, em 7.
Observação: planos registrados no TSE até 22/09/2026.
O que a ciência recomenda
A proteção da saúde diante dos impactos climáticos não começa apenas quando um paciente chega ao consultório ou ao serviço de emergência. Ela envolve vigilância, prevenção, infraestrutura, preparação dos serviços, qualidade do ar, adaptação e resposta a eventos extremos.
É essa ponte entre saúde, clima e decisões públicas que orienta a nota técnica “Diretrizes para Avaliação de Planos de Governo nas Agendas de Clima, Ar e Saúde”, produzida com apoio do programa Médicos pelo Clima. Com base em evidências científicas e em instrumentos que o Estado brasileiro já possui, ela reúne parâmetros para ler propostas nos quatro temas. Entre as diretrizes:
- Saúde: integrar os dados do SUS a modelos climáticos e meteorológicos para antecipar surtos de doenças como dengue, semanas antes de os hospitais lotarem.
- Adaptação: planos de ação contra o calor extremo, com gatilhos claros para acionar a rede de saúde, e hospitais e unidades básicas preparados para funcionar durante desastres, com energia e água de contingência.
- Poluição do ar: expandir o monitoramento da qualidade do ar para todo o país e garantir protocolos no SUS para os períodos de fumaça de queimadas, com estoques de oxigênio e medicamentos respiratórios.
- Mitigação: eletrificação do transporte público e incentivo à mobilidade ativa, que reduzem emissões e também previnem doenças.
A nota lembra ainda que o Estado brasileiro não precisa começar do zero: programas como o VigiDesastres e o VigiAgua já existem, e o desafio é financiá-los, modernizá-los e integrá-los. A nota é um parâmetro geral, e não um resultado do levantamento.
O que os planos dizem
O levantamento do Instituto Ar reuniu 815 trechos em 2.319 páginas. Além dos números acima, ele mostra que a adaptação a eventos extremos domina o registro, com 555 trechos, e que só 6 trechos trazem uma meta com resultado verificável, nenhuma sobre poluição do ar ou saúde.
Faça sua própria leitura
No site, é possível aplicar diferentes filtros, chegando aos temas e recortes que mais interessam à sua leitura. Cada trecho aparece com a página e o texto original do plano.
O levantamento é apartidário e não atribui notas nem faz ranking. Não mede a qualidade das propostas e não checa se as afirmações dos planos são verdadeiras: mostra o que está escrito e o que não foi localizado nos documentos oficiais.
Nosso objetivo é colocar a saúde e o clima na pauta das eleições, e não indicar candidatos, partidos ou voto. A proposta não é dizer ao profissional de saúde o que pensar. É oferecer informações verificáveis para que cada pessoa possa conhecer os documentos, compreender os achados e incorporar essas evidências às conversas sobre saúde e políticas públicas.
Conheça, compreenda, converse e compartilhe essas informações com seus contatos e em suas redes.