A exposição à poluição do ar é frequentemente associada a problemas respiratórios e cardiovasculares. No entanto, evidências científicas mais recentes indicam que seus efeitos podem começar ainda durante a gestação, impactando o desenvolvimento cerebral dos bebês antes mesmo do nascimento.

Um estudo publicado na revista científica Environment International revelou que a exposição materna a partículas finas de poluição do ar (PM2.5) durante a gravidez pode estar associada a uma maturação cerebral mais lenta em recém-nascidos, medida já no primeiro mês de vida.

As partículas PM2.5 são extremamente pequenas, cerca de 30 vezes mais finas que um fio de cabelo humano e têm origem, principalmente, em processos de combustão. Por causa do seu tamanho microscópico, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, o que aumenta seus riscos para a saúde.

Essas partículas podem ser geradas por diferentes fontes, como:

  • Combustão de combustíveis fósseis: emissões de veículos, queima de carvão, óleo e gás
  • Queima de biomassa: fumaça de madeira, resíduos e incêndios florestais
  • Processos industriais: emissões provenientes de fábricas e outras atividades produtivas
  • Fontes naturais: poeira e, em menor proporção, partículas biológicas como pólen

Essas partículas podem conter substâncias tóxicas provenientes da combustão, além de elementos minerais como ferro, cobre e zinco. Devido ao seu tamanho microscópico, elas conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório e alcançar a corrente sanguínea, o que levanta preocupações sobre seus efeitos durante a gestação.

Estudo pioneiro sobre maturação cerebral neonatal

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Hospital del Mar, do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e da área de Epidemiologia e Saúde Pública do CIBER (CIBERESP), na Espanha.

Segundo os autores, este é o primeiro estudo a avaliar a mielinização cerebral neonatal já no primeiro mês de vida, o que representa um avanço importante na compreensão dos efeitos da poluição do ar sobre o neurodesenvolvimento.

O que é mielinização cerebral?

A mielinização é um processo fundamental do desenvolvimento do sistema nervoso. Ele ocorre quando as fibras nervosas são revestidas por uma substância gordurosa chamada mielina, que permite que os impulsos nervosos sejam transmitidos de forma rápida e eficiente entre o cérebro e o corpo.

Alterações nesse processo, tanto uma desaceleração excessiva quanto uma aceleração inadequada e podem ser prejudiciais ao desenvolvimento infantil.

Como o estudo foi realizado?

Durante o estudo, gestantes em acompanhamento pré-natal em três hospitais de Barcelona, Hospital Clínic Barcelona, Hospital de Sant Pau e Hospital Sant Joan de Déu. Tiveram seus níveis de exposição à poluição atmosférica monitorados ao longo da gravidez.

Após o parto:

  • 132 recém-nascidos foram inicialmente selecionados
  • 93 bebês realizaram exames de ressonância magnética com qualidade adequada

As ressonâncias foram feitas antes do primeiro mês de vida, permitindo avaliar o grau de maturação cerebral com base nos níveis de mielinização da substância branca.

Principais resultados da pesquisa

Os dados mostraram uma correlação clara entre maior exposição materna ao PM2.5 durante a gravidez e menor mielinização cerebral nos recém-nascidos. Esse achado indica uma desaceleração da maturação cerebral associada à poluição do ar.

De acordo com Gerard Martínez-Vilavella, pesquisador da Unidade de Ressonância Magnética do Departamento de Radiologia do Hospital del Mar:

“A poluição do ar, especificamente o PM2.5, está associada a alterações no processo de mielinização, um mecanismo fundamental da maturação cerebral. Portanto, é essencial continuar controlando os níveis de poluição e estudar como essa desaceleração pode afetar o desenvolvimento cerebral posterior das crianças.”

Jesús Pujol, chefe da mesma unidade, destaca que os estágios iniciais da vida envolvem mudanças cerebrais intensas e complexas, reforçando que tanto atrasos quanto acelerações excessivas nesse processo podem ser prejudiciais.

O que a ciência ainda precisa investigar

Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores alertam para a complexidade do desenvolvimento cerebral. Um atraso na mielinização não é automaticamente prejudicial, assim como uma mielinização acelerada não é necessariamente benéfica.

Ainda são necessárias mais pesquisas para:

  • Entender como cada componente do PM2.5 afeta o cérebro
  • Investigar o papel da placenta como possível filtro protetor
  • Determinar qual seria a velocidade ideal de maturação cerebral durante a gestação

Poluição do ar também é uma questão de saúde materno-infantil

Os achados reforçam que a poluição do ar não afeta apenas o meio ambiente, mas representa um risco real à saúde desde o início da vida. Proteger gestantes da exposição a poluentes atmosféricos é uma medida essencial para promover o desenvolvimento saudável das crianças.

Para o Médicos pelo Clima, esse tipo de evidência científica fortalece a urgência de políticas públicas que reduzam a poluição do ar e coloquem a saúde materno-infantil no centro das estratégias de enfrentamento da crise climática.

Informação e cuidado desde a infância

Os impactos da poluição do ar e das mudanças climáticas sobre a saúde infantil vão muito além do período gestacional. Eles se manifestam ao longo de toda a infância, influenciando o desenvolvimento físico, emocional e social das crianças.

Pensando nisso, o Médicos pelo Clima desenvolveu a cartilha “Como as mudanças climáticas impactam a saúde das crianças?”, um material informativo que reúne evidências científicas e dados sobre como a crise climática afeta a saúde infantil nas diferentes regiões do Brasil.

A cartilha aborda temas como calor extremo, arboviroses, doenças respiratórias, poluição do ar, além de aspectos menos visíveis, como a ecoansiedade e seus efeitos no bem-estar emocional de crianças e adolescentes. O conteúdo foi pensado especialmente para apoiar médicos e profissionais de saúde, mas também é uma ferramenta valiosa para pais, cuidadores e educadores que desejam compreender melhor esses impactos e saber como agir.

Ao ampliar o acesso à informação, o material contribui para fortalecer a prevenção, a vigilância em saúde e o cuidado integral na infância, especialmente em um contexto de intensificação das mudanças climáticas.

Baixe gratuitamente a cartilha “Como as mudanças climáticas impactam a saúde das crianças?”

Um guia essencial para profissionais de saúde e cuidadores que querem entender, prevenir e cuidar dos impactos do clima na infância.