Os dias de calor extremo têm se tornado cada vez mais comuns e intensos em diversas regiões do mundo e o Brasil não é exceção. Os primeiros meses do ano registraram temperaturas recordes, e 2024 foi marcado por sucessivas ondas de calor. Esse cenário levanta uma pergunta urgente: por que esses eventos estão acontecendo com tanta frequência?
Especialistas e estudos científicos apontam que o aumento das emissões de gases poluentes, especialmente aquelas associadas à queima de combustíveis fósseis e à produção de cimento, tem papel central nesse processo. Essas emissões intensificam o aquecimento global e alteram o funcionamento do sistema climático da Terra.
Uma pesquisa publicada na revista científica Nature revelou que 50% do agravamento de eventos extremos entre 2000 e 2023 pode ser atribuído diretamente às emissões das 180 maiores produtoras globais de combustíveis fósseis e cimento. O estudo analisou 213 ondas de calor registradas em 63 países ao longo das últimas duas décadas e concluiu que, sem a influência das mudanças climáticas causadas pela ação humana, ao menos um quarto desses episódios teria sido praticamente impossível de ocorrer.
O que causa uma onda de calor?
As ondas de calor se formam a partir da combinação de dois fatores principais: massas de ar quente e seco e os chamados bloqueios atmosféricos.
Os bloqueios atmosféricos são sistemas de ventos localizados nas camadas mais altas da atmosfera que funcionam como uma barreira, impedindo a chegada de frentes frias a determinadas regiões. Quando isso acontece, as frentes frias até se formam, mas acabam sendo desviadas para o oceano.
Sem a entrada de ar mais fresco e úmido e sem ventos que promovam a renovação do ar, a massa de ar quente permanece estacionada sobre a mesma região por vários dias. Esse acúmulo de calor provoca a elevação contínua das temperaturas, caracterizando uma onda de calor.
Um planeta mais quente e os impactos no Brasil
Com o aumento da temperatura média global, os padrões de circulação atmosférica vêm passando por mudanças significativas. O ar mais quente retém mais energia e umidade, o que favorece a ocorrência de eventos climáticos extremos.
No Brasil, esse processo se reflete em períodos mais longos de estiagem e calor intenso, intercalados com episódios de chuvas extremas concentradas em poucos dias. A série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) evidencia esse avanço das ondas de calor ao longo das décadas:
- 1961 a 1990: média de 7 dias de calor atípico por ano
- 1991 a 2000: média de 20 dias
- 2001 a 2010: média de 40 dias
- 2011 a 2020: média de 52 dias
Os dados mostram uma tendência clara de aumento tanto na frequência quanto na duração desses eventos.
O calor extremo como ameaça à saúde
As ondas de calor não afetam apenas o meio ambiente, elas representam uma ameaça direta à saúde humana. Embora o corpo humano possua mecanismos de adaptação às altas temperaturas, essa adaptação tem limites e não ocorre sem consequências.
A exposição prolongada ao calor intenso pode causar sintomas como náusea, tontura, fadiga e dores de cabeça. Em situações mais graves, o estresse térmico, um índice que mede os riscos à saúde associados à exposição ao calor que pode evoluir para falência de órgãos e morte.
A pesquisadora Sandra Hacon, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que estuda os impactos do calor na saúde, alerta para a gravidade do problema:
“É impossível suportar esse período de tempo sob essas temperaturas sem consequências. O corpo não tem resiliência para suportar. O acompanhamento da temperatura tem que estar no programa de vigilância com prioridade máxima, se não estamos deixando milhões de pessoas expostas ao risco de vida.”
De acordo com o Ministério da Saúde, quase 60 pessoas morreram no Brasil nos últimos 14 anos em decorrência do calor extremo. No entanto, especialistas destacam que esse número é provavelmente subestimado, já que ainda não existe um protocolo padronizado para associar mortes diretamente à exposição ao calor.
Clima, saúde e responsabilidade coletiva
O aumento das ondas de calor evidencia a relação direta entre mudanças climáticas e saúde pública. Monitorar esses eventos, reduzir emissões e incorporar o risco do calor extremo às políticas de vigilância em saúde são passos fundamentais para proteger a população.
Para o Médicos pelo Clima, compreender as causas e os impactos das ondas de calor é essencial para fortalecer a resposta do setor da saúde diante de um planeta cada vez mais quente e para reforçar que cuidar do clima é, também, cuidar da vida.