Crianças e adolescentes de 333 municípios brasileiros vivem em situação de vulnerabilidade ambiental severa e multidimensional. O levantamento, realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela Vital Strategies, mostra como problemas ambientais, eventos climáticos extremos e deficiências de infraestrutura se sobrepõem em diferentes partes do país.
Os dados fazem parte do Painel Crianças e Meio Ambiente, plataforma que reúne informações sobre a exposição ambiental de crianças e adolescentes nos municípios brasileiros.
Ao todo, são analisados 14 indicadores divididos em quatro áreas: ambiente escolar, eventos climáticos extremos, qualidade do ar e infraestrutura ambiental e urbana. Cada indicador recebe uma classificação de prioridade de acordo com a situação encontrada no município, permitindo identificar onde os problemas são mais urgentes.
Norte concentra municípios com maior vulnerabilidade
As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste concentram a maior parte dos municípios que apresentam dez ou mais indicadores classificados como de alta prioridade.
A situação é mais crítica no Norte, onde 42% dos municípios estão nessa condição, com destaque para Pará, Acre e Amazonas.
No outro extremo, 108 municípios brasileiros não apresentam alta prioridade em nenhum dos indicadores considerados pela análise.
Os dados ajudam a mostrar que crianças e adolescentes estão expostos(as) a diferentes problemas dependendo do território onde vivem e que, em determinadas regiões, várias vulnerabilidades estão presentes ao mesmo tempo.
Qualidade do ar preocupa principalmente no Norte
Entre os aspectos analisados está a qualidade do ar. Nesse indicador, 94% dos municípios da região Norte aparecem em situação de alta prioridade. No Sudeste, são 39%.
As causas da poluição, porém, são diferentes. No Norte, o problema está associado aos incêndios florestais. No Sudeste, está relacionado principalmente ao transporte rodoviário e à atividade industrial.
A exposição à poluição se soma a outros problemas ambientais identificados pelo levantamento, incluindo a ocorrência de eventos climáticos extremos e as deficiências de infraestrutura.
Chuvas intensas, ondas de calor e secas atingem as regiões de maneiras diferentes
O Painel Crianças e Meio Ambiente também permite observar como a exposição aos eventos climáticos extremos varia pelo território brasileiro.
As chuvas intensas são classificadas como um indicador de alta prioridade em 91% dos municípios da região Norte e em 68% dos municípios do Sul.
Quando consideradas as ondas de calor, o Centro-Oeste apresenta a maior proporção de municípios em alta prioridade, com 64%, seguido pelo Norte, com 60%.
As secas aparecem com maior frequência no Sudeste, onde 38% dos municípios estão classificados em alta prioridade nesse indicador, e no Centro-Oeste, com 28%.
Falta de saneamento também chega às escolas
As condições encontradas nas escolas são outro ponto de atenção.
Na região Norte, 71% dos municípios têm escolas que não contam, simultaneamente, com água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo. No Nordeste, essa situação é registrada em 49% dos municípios.
No Sudeste, a falta de áreas verdes nas unidades de ensino aparece entre os problemas identificados.
Os dados mostram que a vulnerabilidade ambiental de crianças e adolescentes não está relacionada a um único fator. Condições de infraestrutura, qualidade do ar e exposição a eventos climáticos extremos podem se combinar e fazer parte da realidade de uma mesma população.
Crianças e adolescentes são os grupos mais afetados
Ao comentar os resultados da análise, Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do UNICEF no Brasil, chamou atenção para a posição de crianças e adolescentes diante das mudanças ambientais:
“Crianças e adolescentes são os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas e da poluição, embora sejam os que menos contribuem para esse cenário.”
Ao reunir os dados de todos os municípios brasileiros e indicar quais situações demandam maior atenção, o Painel Crianças e Meio Ambiente pode apoiar gestores(as) públicos(as) na identificação das vulnerabilidades que atingem crianças e adolescentes em diferentes regiões do país.
Para o Movimento Médicos pelo Clima, olhar para esses dados é reconhecer que os efeitos das mudanças climáticas não se distribuem da mesma maneira pelo território. As condições ambientais, a infraestrutura disponível e a exposição à poluição e aos eventos extremos fazem parte da discussão sobre proteção da saúde de crianças e adolescentes.