O avanço das temperaturas no Brasil deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a representar um desafio econômico, social e sanitário. Um novo estudo estima que o calor extremo pode gerar perdas diárias de até US$ 353 milhões no país, caso não sejam adotadas medidas eficazes de adaptação.

Mais do que números, os dados revelam um cenário preocupante: jornadas reduzidas, queda de renda, aumento de acidentes de trabalho e aprofundamento das desigualdades.

O calor como risco invisível

“O calor é invisível para a sociedade. As pessoas não o enxergam como risco real”, afirma Ismael Silveira, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e um dos autores da pesquisa.

Diferentemente de enchentes ou deslizamentos, o calor extremo não deixa marcas visíveis de destruição, mas compromete silenciosamente a saúde, a produtividade e a economia.

Segundo projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em um cenário intermediário de aquecimento global — com aumento médio de 2,7ºC até o fim do século — as perdas econômicas podem chegar a US$ 228 milhões por dia.

Como o impacto foi calculado

O estudo utilizou a chamada abordagem do capital humano: os pesquisadores estimaram quanto da jornada de trabalho se perde em dias de calor extremo e converteram essa perda proporcional em redução de renda.

Se um trabalhador perde 10% do tempo produtivo devido ao calor, estima-se que 10% do salário diário também deixa de ser gerado.

A análise considerou setores como:

  • Agricultura
  • Construção civil
  • Indústria
  • Serviços
  • Trabalho informal

Os cálculos utilizaram salários médios diários e cruzaram esses dados com o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), que combina temperatura, umidade e radiação solar para medir o estresse térmico.

Os resultados mostram que o setor de serviços concentra o maior custo econômico total. Já agricultura e construção civil podem registrar quedas de produtividade de até 90% em cenários de altas emissões.

Trabalho informal: o elo mais vulnerável

Cerca de 39% da força de trabalho brasileira está na informalidade, aproximadamente 110 milhões de trabalhadores.

Vendedores ambulantes, entregadores, coletores de recicláveis e trabalhadores rurais atuam frequentemente sob exposição direta ao sol, sem acesso garantido a pausas, hidratação adequada ou ambientes climatizados.

Essa vulnerabilidade amplia o impacto econômico e sanitário. As perdas diárias associadas ao trabalho informal podem variar entre US$ 116 milhões e US$ 160 milhões.

Além da perda de renda, há maior risco de:

  • Desidratação
  • Insolação
  • Exaustão térmica
  • Agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias
  • Aumento de acidentes de trabalho

Impacto regional e desigualdades

O Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste são as regiões mais afetadas. Nessas áreas, o índice WBGT frequentemente ultrapassa 34ºC, limite a partir do qual o trabalho físico ao ar livre se torna inviável por longos períodos.

Segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho e da Organização Mundial da Saúde, a cada grau acima de 20ºC o rendimento do trabalhador pode cair entre 2% e 3%.

O relatório Lancet Countdown aponta que, apenas em 2023, o mundo perdeu 512 bilhões de horas de trabalho devido ao calor, o equivalente a US$ 835 bilhões em renda potencial.

Adaptação climática: uma urgência sanitária e econômica

Especialistas destacam que o Brasil já enfrenta impactos não lineares: mais dias de calor extremo resultam em maior irritabilidade, erros operacionais e acidentes de trabalho.

Entre as medidas recomendadas estão:

  • Ajustes nos horários de trabalho
  • Pausas regulares para descanso
  • Acesso à hidratação constante
  • Criação de espaços frescos e sombreados
  • Uso de vestimentas adequadas

Em regiões agrícolas de estados como Mato Grosso, Piauí e Pará, trabalhadores já passaram a realizar colheitas durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã.

No entanto, nem todos os setores conseguem absorver os custos dessas adaptações. Pequenas empresas e trabalhadores informais enfrentam maiores dificuldades, o que pode ampliar desigualdades econômicas e produtivas.

O calor como questão de saúde pública

Para além do impacto econômico, o calor extremo representa um risco direto à saúde coletiva. Ele sobrecarrega o sistema cardiovascular, agrava doenças crônicas, aumenta internações e pode levar à morte, especialmente entre populações vulneráveis.

A crise climática já é, também, uma crise sanitária.

Proteger trabalhadores do calor não é apenas uma estratégia de produtividade: é uma medida de saúde pública, justiça social e adaptação climática.

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