As mudanças climáticas deixaram de ser um problema do futuro. Para milhões de crianças brasileiras, seus impactos já fazem parte da realidade cotidiana.
Um novo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela um cenário preocupante: três em cada dez crianças e adolescentes no Brasil estão expostos(as) simultaneamente a pelo menos três ameaças climáticas. Isso significa que cerca de 16 milhões de meninos e meninas vivem em condições que colocam em risco sua saúde, educação, segurança e qualidade de vida.
Os dados reforçam que as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis à crise climática e precisam estar no centro das estratégias de adaptação e proteção.
Crianças são as mais vulneráveis aos impactos climáticos
O Relatório de Risco Climático das Crianças 2026 analisou a exposição da população infantil a oito ameaças climáticas frequentes em diferentes regiões do mundo:
- Ondas de calor;
- Calor extremo;
- Secas;
- Enchentes;
- Enchentes costeiras;
- Queimadas;
- Tempestades tropicais;
- Tempestades de areia e poeira.
No Brasil, as combinações mais comuns envolvem seca, calor extremo e ondas de calor, além da associação entre seca, calor extremo e tempestades tropicais.
Embora esses fenômenos afetem toda a população, seus impactos são mais severos para crianças e adolescentes. Isso ocorre porque seus organismos ainda estão em desenvolvimento, tornando-os mais sensíveis aos efeitos do calor excessivo, da poluição do ar, da insegurança alimentar e das doenças associadas às mudanças ambientais.
A poluição do ar afeta quase todas as crianças brasileiras
Além dos eventos climáticos extremos, o relatório também analisou a exposição infantil à poluição do ar e à malária, dois problemas diretamente influenciados pelas mudanças climáticas. Os números chamam atenção:
- 95% das crianças brasileiras (cerca de 47 milhões de pessoas) estão expostas à poluição do ar;
- 5,6 milhões de crianças vivem em áreas com risco de exposição à malária.
A poluição atmosférica está associada ao aumento de doenças respiratórias, crises de asma, infecções pulmonares e outros agravos à saúde. Em crianças pequenas, os impactos podem ser ainda mais significativos, comprometendo o desenvolvimento pulmonar e aumentando riscos ao longo da vida.
Para o Médicos pelo Clima, esse dado reforça a necessidade de enxergar a qualidade do ar como uma questão central de saúde pública e proteção da infância.
Mudanças climáticas também afetam a educação
Os impactos da crise climática vão além da saúde física.
Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes e tempestades podem interromper aulas, dificultar deslocamentos e comprometer a infraestrutura escolar. Em muitas regiões, eventos extremos já afetam diretamente o direito à educação de milhares de crianças e adolescentes.
Estudos recentes também apontam que temperaturas elevadas podem prejudicar a concentração, o aprendizado e o desempenho escolar, especialmente em ambientes sem condições adequadas de conforto térmico.
Quando somados aos desafios sociais já existentes, esses fatores ampliam desigualdades e dificultam o desenvolvimento pleno das novas gerações.
Saúde infantil e clima estão relacionados
Os impactos das mudanças climáticas na infância não se limitam aos eventos extremos.
A insegurança alimentar provocada por secas e perdas agrícolas, a escassez de água potável, o aumento da transmissão de doenças infecciosas e os efeitos da poluição atmosférica compõem um conjunto de ameaças que afetam diretamente o crescimento e o desenvolvimento infantil.
Além disso, situações de desastre climático podem gerar consequências emocionais importantes, incluindo ansiedade, medo, estresse e insegurança diante de eventos cada vez mais frequentes.
Por isso, especialistas defendem que as políticas climáticas também sejam encaradas como políticas de proteção à infância.
Proteger as crianças é proteger o futuro
O relatório do Unicef traz um retrato preocupante da realidade atual. Não se trata de projeções para as próximas décadas, mas dos riscos que milhões de crianças brasileiras já enfrentam hoje.
Embora sejam os menos responsáveis pela crise climática, crianças e adolescentes estão entre os grupos que mais sofrem seus impactos.
Garantir acesso à saúde, educação, água potável, alimentação adequada, saneamento básico e ambientes seguros deve fazer parte das estratégias de adaptação climática em todos os níveis de governo.
Proteger a infância diante das mudanças climáticas não é apenas uma questão ambiental. É uma medida essencial de justiça social e defesa dos direitos humanos.
O futuro das próximas gerações depende das decisões que tomamos agora.