Nova pesquisa mostra que a exposição prolongada às partículas finas da poluição atmosférica pode afetar a memória semântica, responsável pelo armazenamento de conhecimentos e informações adquiridas ao longo da vida.
Os impactos da poluição do ar sobre a saúde respiratória e cardiovascular já são amplamente conhecidos. Agora, novas evidências científicas indicam que a qualidade do ar também pode influenciar o funcionamento do cérebro e o processo de envelhecimento cognitivo.
Um estudo conduzido por pesquisadores(as) da Universidade da Califórnia em Davis, da Kaiser Permanente e publicado na revista Alzheimer’s & Dementia: Behavior & Socioeconomics of Aging (Alzheimer e Demência: Comportamento e Socioeconomia do Envelhecimento, em tradução livre), identificou uma associação entre a exposição prolongada às partículas finas de poluição atmosférica (PM2,5) e um pior desempenho na memória semântica, capacidade responsável por armazenar conhecimentos gerais, significados de palavras, fatos e informações que utilizamos diariamente.
Os resultados reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre a qualidade do ar como uma questão de saúde pública que afeta diferentes sistemas do organismo, incluindo o cérebro.
Memória semântica
A memória semântica pode ser entendida como a “enciclopédia” do cérebro.
É ela que permite reconhecer palavras, compreender conceitos, lembrar informações aprendidas ao longo da vida e utilizar esse conhecimento em atividades cotidianas.
Diferentemente da memória relacionada a experiências pessoais, a memória semântica está ligada ao conhecimento acumulado e é fundamental para a comunicação, o aprendizado e a autonomia das pessoas.
Segundo a pesquisa, a exposição contínua à poluição atmosférica pode acelerar o comprometimento dessa função cognitiva ao longo do envelhecimento.
O que o estudo descobriu
A pesquisa acompanhou 740 pessoas, avaliando a exposição média à poluição do ar em seus locais de residência durante períodos de cinco, dez e dezessete anos.
Pesquisadores(as) observaram que participantes expostos(as) a maiores concentrações de partículas finas (PM2,5) apresentaram desempenho significativamente inferior em testes de memória semântica.
Mesmo após considerar fatores como idade, escolaridade, renda e estado civil, a associação permaneceu consistente.
Outro dado que chamou a atenção foi que o impacto observado na memória foi superior ao esperado para aproximadamente uma década de envelhecimento natural, sugerindo que a poluição pode acelerar processos relacionados ao declínio cognitivo.
O que são as partículas PM2,5
As partículas PM2,5 são um dos principais poluentes presentes no ar.
Com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, cerca de 30 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo. Elas conseguem penetrar profundamente nos pulmões, alcançar a corrente sanguínea e desencadear processos inflamatórios em diferentes órgãos.
Diversos estudos já relacionam essas partículas ao aumento do risco de doenças respiratórias, cardiovasculares, câncer de pulmão, além de mortes prematuras.
Nos últimos anos, pesquisadores(as) também passaram a investigar seus efeitos sobre o sistema nervoso, encontrando evidências crescentes de que a exposição prolongada pode contribuir para alterações cognitivas e maior risco de doenças neurodegenerativas.
Poluição do ar também é uma questão de equidade
Além dos impactos sobre a saúde, o estudo chama atenção para as desigualdades ambientais.
Populações que vivem próximas a grandes avenidas, áreas industriais ou regiões com maior concentração de fontes poluidoras tendem a apresentar maior exposição à poluição atmosférica e, consequentemente, maior risco de desenvolver doenças relacionadas a essa exposição.
Esse cenário reforça que melhorar a qualidade do ar depende de políticas públicas voltadas à mobilidade, ao planejamento urbano, de escolhas individuais e à redução das emissões provenientes dos setores de transporte, além dos setores de indústria e energia.
Embora ainda sejam necessárias novas pesquisas para compreender todos os mecanismos envolvidos, as evidências científicas apontam que reduzir a exposição à poluição do ar pode trazer benefícios que vão além da proteção dos pulmões e do coração.